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Os Cinco Pilares da Memória .

Por volta do ano 500 a.C., na Grécia Clássica, um boxeador chamado Scopas, ao alcançar a mais importante vitória de sua carreira, contratou o poeta Simônides de Ceos para escrever um hino, em seu louvor, que registrasse a conquista e fosse apresentado na festa comemorativa desse feito. Assim aconteceu.
Apontado por alguns como o pai do iluminismo grego, Simônides não era um poeta qualquer. Platão o chamava de “homem sábio e divino” e Gotthold Lessing o intitulou como o “Voltaire grego”. Simônides, autor da frase “pintura é poesia silenciosa e poesia é pintura falante”, inspirou as teorias de Kandinsky sobre a relação entre espiritualidade e arte. O pintor russo, mais de dois milênios depois, desenvolveu a idéia do grego e, em seu livro “Do espiritual na Arte”, lançou a proposta de escutar, em um piano interno, a música de cada imagem.
Segundo conta Cícero, quando Scopas percebeu que o poema que havia encomendado tinha dois terços de sua sofisticada retórica louvando os deuses desportistas Castor e Pólux e apenas um terço para o encomendante do poema, se sentiu insultado na alma e declarou que pagaria apenas um terço da quantia combinada, pois entendia que os outros dois terços deveriam ser cobrados dos deuses elogiados pelo poeta.
No banquete desportivo onde o poema foi lido, Simônides foi chamado, no meio da noite, à entrada pelo porteiro, com o apelo de que haveriam dois jovens à porta, querendo falar-lhe com urgência. Ao sair, o poeta não encontrou ninguém lá fora, mas, nesse momento, presenciou o desabar do teto do grande salão que redundou na morte de todos os convidados. Apenas Simônides, retirado da sala a tempo, fora poupado da tragédia. Diz-se, desde então, que os deuses Castor e Pólux pagaram pessoalmente a dívida pela canção, enquanto Scopas, mesquinho e orgulhoso, foi severamente castigado.
Conta Cícero em sua “Ars Memoriae” que, mais tarde, os familiares dos convidados, querendo enterrar seus parentes falecidos, se viram incapazes de identificá-los entre tantos cadáveres mutilados e desfigurados. Nesse momento, se lembraram de acionar o poeta, o único sobrevivente do incidente e o único que poderia saber a localização dos diversos convivas no derradeiro jantar. Simônides, dono de uma memória visual invejável, foi capaz de reconstituir o lugar de cada um no festejo.
Seria a partir dessa reconstituição que Simônides criaria o seu famoso “Teatro da Memória”, uma técnica de memorização que nos permite guardar até seis mil palavras ou números em sequência, após uma única escuta.
Para a civilização ocidental, a arte da boa memória começa nesse evento. Na Índia, entretanto, essa e outras técnicas já eram conhecidas e utilizadas mil anos antes de Simônides nascer. Conheci há muitos anos um erudito indiano, Pandit Prem Ramesh, que me ensinou um pouco sobre a milenar arte da memória de seu país. Ela se ancora em cinco pilares: meditação, nutrição, respiração, técnicas de memorização e exercícios de integração entre os corpos físico, mental e emocional.
O primeiro pilar, a meditação, é na verdade o primeiro e o último. O trabalho de potencializar a memória começa e termina com a meditação. No primeiro momento, ela é importante porque regula o sistema endócrino e, principalmente, a produção do hormônio “cortisol” pelas supra-renais. O cortisol é um hormônio produzido pelo corpo, em resposta a situações de estresse. Quando liberado em doses excessivas no sangue (o que acontece na grande maioria das pessoas maiores de idade no mundo moderno) o cortisol diminui a memória de três maneiras: primeiro ele inibe a utilização de glicose pelo principal centro processador da memória, o hipocampo, e a glicose é o alimento essencial das células cerebrais. Se não houver glicose suficiente no hipocampo, o cérebro não tem como, quimicamente guardar uma memória. Em segundo lugar, o cortisol é uma substância corrosiva, que, quando em grande concentração, consome e sacrifica neurônios e suas ramificações. Ele rompe o metabolismo normal dessas células e faz com que quantidades demasiadas de cálcio as penetrem e produzam moléculas de radicais livres, que, com o tempo, podem matar bilhões de neurônios. Por último, o cortisol excessivo desorganiza a atividade de neurotransmissores. Assim, mesmo uma lembrança antiga bem guardada no neocórtex cerebral, não pode mais ser resgatada pela mente consciente porque as células cerebrais não conseguem se comunicar umas com as outras a contento. Essa é a causa de, em situações de estresse, a pessoa se sentir confusa, tonta e incapaz de se concentrar a contento. A meditação é um precioso aliado para quem deseja reequilibrar quimicamente o funcionamento do cérebro.
O segundo pilar da memória, a nutrição, é importante no processo regenerativo do que já foi destruído na pessoa. Normalmente quando a pessoa passa a não conseguir mais se lembrar de uma ou duas palavras habituais, que teimam em não vir à sua cabeça quando necessário, ela acha que está começando um processo de declínio mental. Na verdade, quando isso acontece, uma quantidade significativa de ramificações nervosas dos neurônios já estão comprometidas. Por esquecer menos de um por cento dos dados, a pessoa deduz que perdeu um por cento da capacidade do cérebro de responder a desafios, mas não é verdade; quando a pessoa perde as primeiras conexões entre células, as informações que seriam enviadas por ali, passam por outros caminhos auxiliares e a pessoa não percebe que perdeu potencial. Quando ela se dá conta, o processo degenerativo já está bem mais avançado nela. Com algumas sugestões nutricionais, que incluem vitaminas e aminoácidos adequados, a pessoa, após neutralizar a produção de cortisol, é capaz de recuperar a saúde do corpo de uma quantidade significativa células cerebrais que evoluíam na direção da deterioração.
Neste momento entra em cena a respiração. Se a alimentação devolve saúde ao corpo central da célula, através de técnicas respiratórias, é possível ativar e dinamizar as mitocôndrias, os “motores” internos das células, que produzem eletricidade e magnetismo e estimulam o nascimento de novos dendritos, a capilarização nervosa dos neurônios. Com isso, eles ganham a capacidade de estabelecer um sem número de novas conexões, ampliando imensamente a capacidade de memorizar.
Chega então a hora de colocar em prática o quarto pilar, que é constituído pelos exercícios de memorização. Pandit Ramesh me ensinou que essas técnicas eram utilizadas pelos antigos sábios indianos para memorizar os Vedas, livros sagrados daquele país, antes do surgimento da linguagem escrita. Nessa época, uns poucos sábios eram responsáveis por se tornarem uma espécie de biblioteca-viva, que atravessava gerações. É importante notar, que os vedas inteiros são muito volumosos. Não caberiam em uma sala de estar de uma casa comum. Prem Ramesh é um dos poucos guardiães milenares dessa técnica, ainda vivo em Varanasi, na Índia.
E, por fim, chegamos ao quinto pilar, onde são aplicados os exercícios de integração entre os corpos físico, mental e emocional. Essa parte é formada por um conjunto de movimentos que integra a nossa energia, ativa o sistema imunológico, e, reordena o sistema nervoso, equilibrando as funções neuro-vegetativas e criando uma base física não apenas para a memória, mas para reverter a espiral degenerativa pela idade em uma espiral regenerativa.
Esses cinco elementos juntos, não apenas desenvolvem uma memória antes impensável na pessoa, mas, promovem um processo de rejuvenescimento que se manifesta em suas camadas mais superficiais e mais profundas.
Pandit Ramesh me disse que era preciso adaptar essas técnicas para o homem brasileiro quando eu voltasse ao Brasil, para torná-las acessíveis e funcionais ao mais simples dentre os futuros adeptos que delas viessem a usufruir. Foi isso o que fiz. O resultado dessa organização do material herdado é o método “Memória e Rejuvenescimento através da Meditação”. o nome que encontrei para melhor traduzir essas práticas.
fonte :Pedro Tornaghi

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